ENTREVISTA CRRC - SÉRGIO FRANCO  
2009-05-06

Nome Completo: Jorge Sérgio Seixas Duarte Franco

 

Idade: 54 anos

 

Profissão: Assistente Técnico da Câmara Municipal de Coimbra/Treinador de Rugby

 

Cargo/Posição que actualmente exerce no Rugby: Treinador da Associação Académica de Coimbra.

 

 

CRRC: Como foram os seus primeiros passos no Rugby?

 

SÉRGIO FRANCO: Na equipa de Juvenis da Associação Académica de Coimbra no ano de 1969. Tive como treinadores o Grácio nos juvenis, Cabral Fernandes nos juniores, Manuel da Costa  e César Pegado nos seniores. Tive o privilégio de jogar nas equipas que venceram as primeiras competições importantes para a AAC (Torneio de Abertura Nacional, 1ª Taça de Portugal e 1º Campeonato Nacional).

 

 

CRRC: Qual foi o momento mais emocionante/importante que viveu no Rugby?

 

SÉRGIO FRANCO: Como jogador a internacionalização na selecção sénior aos 19 anos. Como treinador as duas Taças Ibéricas da Académica em Espanha. Como amante do rugby ver Portugal jogar em França a fase final da Taça do Mundo com estádios cheios com 30.000 espectadores foi um enorme momento que nunca esperei ver.

 

 

CRRC: Como descreve a situação actual do Rugby em Portugal?

 

SÉRGIO FRANCO: O aparecimento de novos clubes, de mais campos, e o consequente aumento de praticantes é um sinal de desenvolvimento. A participação de Portugal na fase final da Taça do Mundo trouxe uma visibilidade nunca vista ao rugby português. O rugby era, até então, em Portugal, uma modalidade quase anónima. A transmissão televisiva anual do Torneio das 5 Nações era a grande excepção. A comunicação social ignorava-o e os clubes tinham seguramente grandes dificuldades na angariação de receitas. Hoje é possível conseguir mais patrocínios e os clubes viram aumentar consideravelmente o número de jovens a procurar esta extraordinária modalidade. Os principais jornais desportivos dedicam semanalmente páginas inteiras ao rugby e alguns jogadores portugueses têm saído para jogar no estrangeiro.

 

Há dois patamares distintos – a selecção nacional e o resto. A actividade de uma selecção nacional que se prepara para alcançar novo apuramento para uma fase final da taça do mundo, com a exigência competitiva que isso requer, não pode estar condicionada aos quadros competitivos internos. Uma coisa não pode prejudicar a outra e vice-versa. Os jogadores da selecção, que actualmente recebem dinheiros da Federação ou dos patrocinadores da selecção/federação, têm de assumir que o seu “clube” é cada vez mais a selecção. Se querem ver assegurado o apuramento para a próxima fase final da taça do mundo deverão estar disponíveis a tempo inteiro para a selecção. As competições regulares nacionais não podem parar sistematicamente para que fiquem salvaguardados os compromissos de preparação ou de competição da selecção. Os clubes que actualmente “fornecem” mais jogadores à selecção, que claramente têm beneficiado desse facto, deverão estar preparados para esta nova realidade.

 

O desnível competitivo existente actualmente entre as equipas das 2 principais divisões merece, como é óbvio, atenção de todos. Creio que este desnível irá, num futuro próximo, ser atenuado. Caso isto não se verifique os quadros competitivos deverão ser ajustados à realidade. Nunca no final da época para entrar em vigor na época seguinte, no preciso momento em que acabam de ficar definidas as classificações finais e os clubes que sairiam prejudicados. Isso seria no mínimo anedótico, para não lhe chamar desonesto. Como a grande maioria das pessoas ligadas ao rugby são pessoas honestas podemos todos ficar descansados…

 

O actual modelo competitivo, particularmente a forma como é apurado o campeão nacional, tem-se revelado injusto. Melhorou com a meia-final disputada a duas mãos na Divisão de Honra mas não consigo entender qual a lógica desta diferença na competição nas duas divisões.

 

 

CRRC: Quais as principais diferenças sentidas no Rugby nacional desde o início da sua carreira até aos dias de hoje?

 

SÉRGIO FRANCO: Na altura vencíamos a Itália mas claro que isso não é referência. Jogávamos com botas de “travessas” com pregos que furavam os calcanhares e, muitas vezes, em campos pelados. Em Lisboa, durante largos anos, só existia o Estádio Universitário e o Nacional. Jogávamos a maior parte das vezes no Estádio Universitário de Lisboa, no Inverno com lama até aos tornozelos, e quase ninguém em Portugal sabia o que era o rugby.

 

Felizmente que o jogo evoluiu, tornou-se muito mais rápido, mais dinâmico, de grande exigência para os jogadores que trabalham cada vez mais e melhor.

 

CRRC: Como descreve o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pelo Comité Regional de Rugby do Centro?

 

SÉRGIO FRANCO: Não tenho acompanhado ao pormenor, mas se é para dizer bem do presidente não tenho dúvidas em dizer… Julgo que estará a ser feito algum trabalho junto das escolas e apoio técnico a clubes “emergentes”. A organização de torneios e mesmo de quadros competitivos formais para novos clubes é um importante passo para a integração desses clubes no rugby. A existência de quadros técnicos na Associação do Centro foi um passo importante para que esse trabalho se concretizasse.

 

 

CRRC: Que iniciativas sugere para o desenvolvimento do Rugby em Portugal e na Região Centro?

 

SÉRGIO FRANCO: O Rugby só se desenvolve com clubes sólidos, dirigentes, árbitros e técnicos competentes. No entanto o protagonismo deve ser dado aos jogadores, que, como é sabido, para além de serem os principais intervenientes no jogo são também o principal capital dos clubes. O desenvolvimento passa sempre por uma formação consistente e oferta de condições de excelência que contribuam para a motivação dos atletas.

 

Novas propostas competitivas que façam com que não seja mais possível os jogadores estarem 4 e 5 meses sem competição. O desnível existente actualmente no campeonato principal tem só a ver com esta realidade. Os clubes com atletas na selecção, a competirem durante praticamente todo o ano e a um nível muito superior aos seus pares, acabam por aparecer mais fortes e consistentes nas competições internas quando utilizam esses jogadores. Em finais de Outubro de 2006 o Grupo Desportivo de Direito apareceu em Coimbra para jogar uma jornada da Taça de Portugal com a Académica sem os seus atletas internacionais. Naturalmente perdeu por 41 – 5, e podiam ter sido 60 pontos de diferença…Nessa altura a Académica preparava-se para jogar na 1ª Divisão na sequência da descida na época anterior. Nesse ano, também no âmbito da Taça de Portugal, a AAC voltaria a vencer o Direito em Monsanto pelos mesmos motivos (ausência dos jogadores ao serviço da selecção).

 

O “ten a side” deste ano foi uma boa iniciativa, pena não ter contemplado mais equipas. A minha equipa, por exemplo, não pôde competir por ter 2 jornadas do campeonato coincidentes com estes torneios. 

 

 

CRRC: Que mensagem gostaria de deixar aos jovens praticantes da modalidade?

 

SÉRGIO FRANCO: Não tenham dúvidas que escolheram bem, o rugby é a melhor modalidade desportiva. Não desistam nunca, mesmo quando as coisas parecem muito difíceis, porque quanto mais difícil é o desafio maior a satisfação quando se alcançam os objectivos. VIVA O RUGBY!

 

 
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